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Aventura Espontânea!

Atualizado: 2 de jul. de 2022



Queimem seus módulos de aventura e rasguem as zines de cenário! O texto de hoje é endereçado àqueles que cogitam mestrar, iniciantes ou já temperados nas forjas descritivas. É um exercício criado para remover as travas da incerteza, municiando-os para criar eventos únicos, permitindo que os dados alimentem sua imaginação, ao gerar estímulos que facilitam a criação de uma aventura. O caos invocará nosso poderoso feitiço narrativo!


Todos queremos nos juntar às voltas de uma mesa, conversar, sorrir, rolar dados e chutar traseiros. A diversão é um objetivo conjunto do qual o grupo todo faz parte. Mas não existiria um Mestre, se as responsabilidades fossem de igual medida. Não são!


Mestrar é trabalho, e qualquer um que tenha se aventurado pelas veredas da preparação de uma sessão, sabe disso. Enquanto alguns estão “sextando”, bebendo cervejas e provando delícias à mesa de um maravilhoso bar, o mestre rabisca, consulta e prepara, documentos, livros e arquivos. Solitário em seu quarto mal arrumado, junta retalhos esparsos e monta um acolchoado macio e colorido para que, no dia seguinte, durante quatro horas ou mais, todos encontrem o entretenimento de um bom jogo de interpretação.


O trabalho do mestre é prover uma série de imprevistos ambientados em um mundo que instiga a exploração. Existem muitos métodos, todos com seu mérito, para facilitar essa labuta. Aqui compartilho de um que certamente trará ação para a mesa, surpreendendo não só seus aventureiros, mas também você!


Tabelas aleatórias. Este é o segredo! Deixemos para trás os roteiros elaborados das épicas aventuras preparadas por profissionais, pelo menos por hoje. Vou demonstrar como uma ou duas tabelas simples, podem extrair das mentes mais insossas, como a deste autor, situações únicas, complexas o suficiente para compelir a imaginação de seus ansiosos jogadores.


Ao preparar a sessão, pense em criaturas e personagens que lhe interessam no momento, levando em consideração o cenário da aventura. No caso, com minha imaginação pungente, resolvi popular uma terra europeia medieval. Aqui, por duas vezes, rolei 1d6 para cada coluna e na pizza de localidade. Quando rolei para criaturas, rolei mais 1d6 para aferir quantidade.




Os resultados:


a) 6 - seis lobos e) 2 - quatro seguidores


b) 2 - mortos f) 4 - fugindo


c) 2 - encharcado g) 1 - céu limpo


d) 2 - ruínas h) 4 - estrada no campo


A partir destas informações, minha mente, antes morosa, pôde tecer uma cadeia de acontecimentos, gerada aleatoriamente e alimentada por conceitos que vagavam soltos por minhas ideias.


Os aventureiros avistam um contingente de seguidores fugindo pelo campo. Se o grupo resolve interrogá-los, descobre que fazem parte do séquito de um clérigo chamado Braga, que peregrinava com o objetivo de visitar antigas ruínas de um vasto monastério.


Na noite anterior, assentaram acampamento sobre a terra encharcada, no limiar do terreno sagrado. Pela manhã, no entanto, perceberam que seu professor e mestre, Braga, havia desaparecido. Rastros compatíveis com os do líder foram encontrados marcados na lama, partindo em direção às ruínas. Amedrontados e supersticiosos, os sectários levantaram acampamento e fugiram em busca de auxílio.


Os seguidores reúnem as moedas que têm e oferecem aos aventureiros, em troca de notícias e possível resgate de seu mestre.


(...)


Os rastros pesados do clérigo perdido levam o grupo a um velho ponto de controle sob a arruinada amurada que continha o monastério. Uma cena horrível pode ser vista, as carcaças sangrentas de seis lobos, dispostas em forma radial, encharcam o chão e preenchem o ar com o aroma de morte…


Este é um exemplo de como as ferramentas apresentadas, mesmo quando alimentadas por conceitos simplórios, servem como ponto de partida para algo que surpreende a mesa como um todo e tem o seu DNA criativo. A jornada de criação é inspiradora e não maçante, você está preenchendo as lacunas de um processo essencialmente randômico e não balanceado, algo que soa muito mais natural à mesa do que narrativas demasiadamente endurecidas e guiadas.


A dinâmica do caos criativo pode ser repetida para gerar as mais variadas partes de uma aventura. Mudando a quantidade e tipos de dados, tamanho das tabelas e pré-selecionando o conteúdo nelas posicionado, pode-se criar uma lógica geral que será randomizada pelas rolagens e reestruturadas na preparação final da narrativa.


Existem variações de processo para diferentes momentos, contemplando desde a criação de masmorras e mundos, à (des)organização de um cortês baile à fantasia e seus convidados. Modelos diferentes serão tratados por outros artigos e produtos em www.arcanaprimaria.com


Note que o processo pode ser feito em dias anteriores à sessão. As respostas dos dados continuarão sendo caóticas, mas você terá mais tempo para enriquecer suas descrições e as lógicas internas da narrativa.


Quem sabe poderá terminar a tempo de tomar aquela gelada, antes de dormir? Só não exagere! Amanhã você é o Mestre, e não pode estar de ressaca.



Victor Troiani

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