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Alta letalidade atrapalha narrativas épicas?

Atualizado: 2 de jul. de 2022


Créditos da ilustração: Shutterstock


Há dois anos que testamos a Arcana Primária com jogadores novatos e experientes, adeptos dos mais distintos sistemas de RPG. Nem todo jogador gosta de sentir que seu personagem começa como um ser insignificante, apto a morrer por uma simples facada ou por uma queda maljeitosa. Em alguns casos, há ainda a expectativa de que o personagem comece como um herói prestes a tecer o fio dourado de sua epopeia. A questão que surge, perante o choque da letalidade nua e crua, é: estaria o jogador condenado a narrativas simplórias de pilhagens modestas e ossos quebrados?


Um detalhe que escapa a jogadores desacostumados com a letalidade é que, normalmente, sistemas mais fatais abrem bastante margem para opções criativas fora da ficha do personagem. Já discorri sobre isso na postagem "O problema dos botões". Vamos calçar as botas e trilhar alguns fatos memoráveis de um teste específico.


O grupo consistia em cinco jogadores, grande parte dos quais não havia jogado RPG antes. A mescla de classes era boa, com possibilidade de cura e de algumas magias utilitárias. Na primeira sessão, dois personagens pereceram de modo cruel. Na segunda, um personagem morreu. Na semana seguinte, um NPC contratado perdeu um braço, mas sobreviveu. Pelos próximos cinco meses, nenhum personagem morreu, embora alguns tenham flertado com os véus da escuridão. Isso não é resultado de um aumento na covardia dos personagens, ou em qualquer adaptação no estilo de mestrar. Emergiu um padrão comportamental novo nos jogadores, forjado no ferro e sangue. Trata-se de interagir mais com o ambiente, esconder-se atrás de rochas vultosas para evitar ataques à distância, esquivar-se de combates contra bandos numerosos, disparar em um lustre para derrubá-lo sobre inimigos, dar rasteiras e assim por diante. Nem tudo está previsto nas regras. Nem tudo possui um tutorial. Nesse caso, a empiria superou a burocracia, sem burlar nenhum mandamento.


Ao final da aventura, discutimos momentos memoráveis (de vida e de morte) e, na hora da avaliação, todos sentiram-se muito contentes com o tempo que passamos juntos. A aventura fez dos personagens insignificantes, figuras que deixaram sua marca na região. Tenho por certo que, caso continuássemos para níveis mais avançados, o escopo heroico se ampliaria.


Assim, concluo que não é preciso muita experiência para conseguir alcançar proporções épicas em jogos altamente letais. Tampouco é preciso de muitas regras para proporcionar aventuras épicas, bastam investimento criativo e bom senso. Se me permitem findar o texto com uma analogia, diria que trazer a letalidade à mesa é como parar de apostar feijões no poker e começar a colocar dinheiro no pote. A vida dos personagens é o capital em questão, é o que faz você vibrar quando passa nos testes e suspirar quando escapa de uma horda inimiga. A criatividade imbui o jogador com a coragem necessária para enfrentar a aventura de cabeça erguida e nulificar tendências covardes.


Para melhor entender a filosofia que rege estas opiniões, refiro nossos leitores ao famoso Old School Primer, de Matt Finch, disponível grátis aqui e a este vídeo do magnânimo DM Quiral.


Como sempre, apreciamos seus comentários e sugestões. Que possamos jogar juntos um dia, em desfechos gloriosos e recompensadores!



Alexandre Katz


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