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Viver Aventuras

When the Heart is Young - John W. Godward


Viver aventuras, o estofo de toda a grande narrativa. Rememorar, remontar, rascunhar na mente os dias, momentos, instantes exatos em que emoções foram evocadas, disparando nas sinapses aquilo que a alma apreende em um segundo.


Conduzir o teatro da mente nos obriga a ser sinceros, mesmo na mais fantástica cena, no mais sideral dos cenários, contra criaturas nascidas de sonhos ilúcidos.


Como na literatura, a narração precisa assemelha-se à vida porque dela retira sua matéria. Um jogador que não se coloca diante de situações, busca em experiências indiretas as referências para suas descrições, e isso gera um problema: a iteração da iteração está cada vez mais distante do real, e todos podemos percebê-lo, mesmo que de forma inconsciente.


O corpo estremece, fica tenso, a voz gagueja, os olhos desviam-se, nossa constituição demonstra a insegurança de alguém que tenta explicar o que não pertence à sua vivência.

Em um palco, como ator profissional, isso seria um problema, algo imperdoável. Aqui, como amantes de um hobby que, em parte, nos pede alguma atuação, estamos apenas refletindo sobre como nos sentirmos mais à vontade, trazendo à mesa e à imaginação compartilhada um tom mais natural no decorrer das aventuras.


Aqui podemos trazer alguns exemplos, invocar mestre Tolkien, e comparar o quanto a experiência triunfa sobre a imaginação estática. Esse contraste está presente quando colocamos lado a lado os Hobbits mais novos, antes da grande aventura, e alguém como Bilbo.

Apesar de imensamente lúdicos, afeitos às histórias e a sentar à fogueira com seus cachimbos e uma boa bebida, o mais colorido e participativo mito contado por estes pequeninos, não pode capturar a contemplação imaginativa que uma das histórias vividas por Bilbo traz às mentes efervescentes de seus conterrâneos.


Em outro livro, percebemos que por mais belas e ilustrativas que fossem as histórias feéricas contadas por Wendy a seus irmãos, nada os preparou para o que Peter Pan tinha a dizer, sobre toda uma vida de ação e aventura na Terra do Nunca.


A alma capta mais do que os sentidos podem ver, muito mais do que as lentes podem filmar, ou as palavras descrever. Estas mídias nos fazem atentar a aspectos escolhidos por autores, e também sorver das impressões deles, através de um olhar curado pela experiência dos escritores e diretores.


Mas nenhuma taverna pode ser tão viva, a menos que você se sente em um canto de um bar e observe o movimento, as pessoas, os olhares, flertes, mágoas. Nenhum escuro será tão tenebroso quanto a sua solidão entre as trevas. Qual adoração fictícia pode guardar em si toda a riqueza de uma missa piedosa vivida intensamente?


Perigos, prazeres, presenças; cores, auroras e crepúsculos; o cheiro da grama, o gelo da água e das gotas de chuva caindo torrencialmente. São sensações que nos engrandecem, que nos fazem existir integrados ao resto da criação, e integrados com nossos parceiros de jogo.

Eles também viveram algumas dessas sensações, e quando você os levar, através de palavras, até aquele segundo crucial, onde o perigo era real, o amor incendiante, a tristeza palpável, onde as lágrimas escondiam ao mesmo tempo alegria e saudade, algo difícil de explicar, você não precisará explicar. Porque eles sabem, as almas se comunicam no sublime da experiência.


Para mestrar, é preciso viver.


A verdade não se aprende, ela se atravessa como o véu de uma cachoeira.


De lá, você nunca mais será o mesmo.


por Victor Troiani

 
 
 

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© 2022 por @artenovamkt

Ilustradores: Bernardo Hasselmann (@bfhasselmann), Carlos Castilho (@crawlstilho), Diego Gregorio (@becodoesboco),  Jade Jeronimo (@wolfspider_art)

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