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A Elevação da Mediocridade

Um ensaio sobre técnica, maturidade e o risco da terceirização da alma em tempos artificiais.
Um ensaio sobre técnica, maturidade e o risco da terceirização da alma em tempos artificiais.

As palavras.

Com elas buscamos compreender o que pensamos. Tomamos decisões. Por vezes nos convencemos a trocá-las. Comunicamo-nos.

Transformamos o que vimos e ouvimos em nossas ocas cabeças em símbolos, falados ou escritos, que tentam, com melhores ou terríveis resultados, expressar a faísca original do pensamento e seus desdobramentos.

Mas esse não é o caminho completo. Alguns diriam que é apenas a parte mais fácil. A que menos exige da nossa existência. Marque essa palavra. Ela é uma das chaves deste baú enterrado que buscamos resgatar.

A inteligência artificial, usada para geração de texto, opera sobre duas linhas condutivas: o prompt apresentado pelo requisitante (você) e os padrões e dados assimilados durante seu treinamento.

Sua matéria-prima é o registro humano já cristalizado em linguagem. Ela reorganiza. Sintetiza. Correlaciona. Não contempla. Não sofre. Não amadurece.

É um espelho estatístico polido, não uma alma em processo.

De textos produzidos por humanos e incorporados em seu treinamento, extrai padrões. Filtra o que julga pertinente e suficiente. Entrega uma resposta lógica, condizente, sucinta.

É treinada enquanto produto: deve gerar lucro, evitar polêmicas e blindar seus criadores de desdobramentos jurídicos, políticos ou midiáticos. Essas máquinas generativas não possuem experiência vivida. Não têm intencionalidade própria. Não sofrem. Não possuem teleologia existencial. Não atravessam o tempo, apenas operam estados.

Em média, não criamos algo realmente útil até, pelo menos, a adolescência (perdoe-me, Mozart). E muitos de nós demoramos 30 anos para constituir algo minimamente integrado. Já diziam os gregos. Jung lembra que aos 40 é que o homem começa, de fato, a se tornar quem é.


Nosso espírito depende de tempo para maturar. Para absorver o verdadeiro e dele tirar conclusões. Para comparar realidades, ler narrativas, sofrer, alegrar-se, amargurar-se.

As ideias não nascem apenas do aparato cognitivo que chamamos inteligência. Elas brotam do que guardamos enquanto o tempo passa, desde o primeiro instante de vida, quando concebidos bebezinhos no ventre de nossas mães.

O processo.

A IA organiza o já dito.

O homem descobre aquilo que ainda não foi. O homem que vive experiencia o que jamais foi vocalizado (e talvez jamais será) mas que, ainda assim, marca e floresce.

A IA não substituiu os criadores. Ela elevou o nível da mediocridade. O texto “ok” tornou-se abundante. O razoável, barato. Isso nos obriga a algo incômodo: viver mais, observar melhor, sofrer com atenção e dominar com rigor as ferramentas da escrita, da organização e da forma.

O jogo ficou difícil, não porque a máquina cria, mas porque o medíocre agora parece competente.

A IA pasteurizou a inteligência e expôs nossas fraquezas.

No campo textual, esse é o diagnóstico que enxergo até o momento. E a capacidade técnica dessas ferramentas continuará avançando. A combinação será mais refinada. A filtragem, mais precisa. A simulação de qualidade, mais convincente.

Vai ficar cada vez mais difícil.

Assistimos à elevação da correção gramatical nos ambientes virtuais. À padronização das chamadas publicitárias. Aos roteiros homogêneos dos influenciadores. À estética cada vez mais previsível do design.

É a vitória confortável da preguiça.

Munida de técnicas psicológicas, essa máquina alimenta os desavisados, os cansados, os solitários e os conduz a consumir o que parece profundo, mas raramente é vivido. E assim alimentamos, inadvertidamente, uma engrenagem que não conhecemos, mas que já nos molda.

O outro lado da moeda.

Como se o status quo fosse cuidadosamente arquitetado para nos manter distraídos, vivemos cada vez menos.

Recebemos nossas experiências enlatadas: streaming, reels, danças coreografadas para quinze segundos de atenção. Nosso imaginário é alimentado por narrativas rasas, ruídos constantes e conflitos políticos que pouco transformam, mas muito consomem.

Arriscamo-nos menos. Criamos menos. Lemos menos do que realmente importa.

Trabalhamos para sustentar estruturas que mal compreendemos, e com o que sobra do nosso tempo consumimos as parafernálias que nos prometem descanso, mas nos entregam entorpecimento.

A maior aventura de muitos já não é atravessar o desconhecido, mas parcelar uma viagem de roteiro calculado, embalado e vendido como experiência.

A fonte criadora quase não é tocada por nossos lábios. Bebemos do líquido filtrado por algoritmos.

Nossa expressão é moldada pela estatística do “engajamento”. Pelo cálculo do que “vai dar certo”. Pela antecipação do que não ofenderá.

E agora, até as palavras, último reduto da interioridade, podem ser terceirizadas.

Não porque as máquinas tenham alma.Mas porque nós estamos deixando de exercitar a nossa.

Algum tipo de conclusão

A luta contra a IA é uma luta de nós contra nós mesmos.

O que o mercado ditará está, em grande parte, fora de nossas mãos. As grandes empresas dependem de ferramentas como essa, que nos tornam obsoletos, para continuarem viáveis em um mundo de economia cada vez menos sustentável.

É interessante para certos setores do poder que a capacidade do homem médio seja amortizada e previsível.

Jogar pedras contra o abismo é inútil.

A mudança possível (e obrigatória) é interna.


Mesmo que usemos o artificial, devemos fazê-lo com cuidado:

Que ele revise, não redija.

Teste ideias, não assuma as rédeas criativas.

Ofereça material de estudo, não substitua aquilo que temos a oferecer como fruto da nossa experiência.

Só se publica o artificial quando um de nós falha no íntimo da nossa humanidade, deixando-nos vencer pelo fácil ao invés de conquistar o que deve ser feito.

Esta conversa é uma discussão em processo, uma elocubração que disponho neste documento enquanto brigo contra minhas próprias limitações.

Um abraço,

Victor Troiani

 
 
 

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