O OSR está morto
- Victor Troiani

- 20 de jan.
- 3 min de leitura

Os primeiros gritos por socorro ecoaram do alto da torre, quando, no topo da construção, os mesmos pedreiros que assentaram os primeiros tijolos já não falavam a mesma língua, não entoavam os mesmos preceitos e alargavam a arquitetura, afastando-se até não serem mais capazes de enxergar o trabalho um do outro, muito menos o todo.
Um morto-vivo caminha na desolação. Seu nome foi escrito, rabiscado, repensado, reescrito e problematizado por muitos: influencers, autores, comentadores, grandes capitalistas, pequenos artesãos. Ora era Revival, ora Renaissance, passou a ser Releitura, para então ser espezinhado e “superado” por aqueles que se nutriram – em ideias, materiais e views – de sua existência.
O OSR foi traído por aqueles que não seriam quem são, sem ele.
Como, desde o início, atribuíam-se inúmeras e confusas qualidades ao tal “movimento”, quase ninguém conseguiu capturar seu significado, e dizer com certeza e objetividade absolutas, do que se tratava.
Pairava no ar apenas um acordo coletivo: falar de um pedacinho dele de cada vez, produzindo conteúdo convenientemente disperso ao longo das semanas, para que um dia, quem sabe, alguém que realmente se importasse com a verdade, viesse e costurasse o frankenstein contraditório que foi apresentado, em nacos mutilados, para os consumidores.
Tivemos o momento das regras reestruturadas e rediagramadas, chamadas de retro e clones.
Tivemos as eras de muito discurso sobre como era jogado o RPG antigamente, como os primeiros autores queriam que você se divertisse hoje, em 2025, e como não chateá-los era importante, cinqüenta anos depois.
Então vieram as correções, principalmente pós 2020, porque certas palavras e atitudes não eram mais de bom tom, para a sensibilidade atual. Assim, não fazia mais sentido chamar-nos revival, mas ainda funcionava um nome como “renascença”.
Quando a permissão de alterar um pouco o que veio do século passado se tornou clara, um imparável – esse sim – movimento tornou-se inevitável e previsível. Como as reformas de outros momentos da história nos mostram, quando a ortodoxia é questionada, o que ocorre é a fragmentação de uma essência central e perene em milhares de riachos inconsistentes.
Nenhum “movimento” resiste ao ego, e as igrejas fracionadas do culto ao OSR jamais voltariam a se encontrar.
O design dos revolucionários suecos, autores de Mörk Borg (2020), capturou, quase que no momento exato, a estética da fragmentação do cenário indie. Como nas páginas dos seus livros, nenhum sentido podia ser facilmente acessado, os capítulos não conversavam entre si e qualquer resquício de pertencimento e uniformidade se perdera. O que importava agora, enquanto o navio afundava, era chamar o máximo de atenção, e distanciar-se daquilo que era visto como ultrapassado, revivido ou mesmo renascido.
Tornou-se importantíssimo mudar mais dos termos, nomes de classes, mecânicas, enredos e conceitos centrais. Redefinir autores antigos entre brigas, esvaziá-los de suas criações e transformá-los apenas em símbolos, melhor ainda se fossem símbolos da rebeldia, do traído, daquilo que não existiu, mas deveria ter existido. Era preciso transformar o canônico em impostura, e o conhecimento corrente, o senso comum, em ilusão e engano.
O RPG tinha sido uma boa ideia: “mas olhe só o que eu criei de seu cadáver!”
A comunidade, os jogadores, confusos, aproveitavam aquilo que conseguiam compreender, passando batido por termos e renovações estranhas, mas próximas o bastante do familiar. Eles só queriam jogar, e jogar da forma certa. E de boas intenções se alimentam os que têm o desejo de mudança.
Hoje, o cenário do RPG que não é D&D oficial – a parte que proliferou do que um dia se chamou OSR – é uma mistura de grandes financiamentos coletivos, caixas de luxo, promessas de novidade, ilustrações belas e livros que já não são lidos, por serem tão parecidos, mas tão bonitos.
Vivemos entre técnicas de funil e excitação sensorial, cores saturadas e vendedores dizendo que “nada será como antes”. A cada mês, um super lançamento com dezenas de metas estendidas, que chegará à sua casa daqui a um ano, quando outros doze livros imperdíveis já terão surgido outra vez.
Hoje em dia divide-se a ideia de resgate/remodelagem do “sentimento” original do RPG em vertentes inúmeras: os tradicionais, os clássicos, os inovadores...
Cada autor, cada editora, cada influencer que fala sobre o assunto incute um pouco da sua preferência dentro do guarda-chuva tão furado que se tornou inútil. É que as etiquetas vendem livros e afunilam espectadores, e os criadores têm que continuar a vender; não se pode abandonar o nome que martelamos no horizonte de consciência. Assim se eternizam a confusão, a apropriação e a deliberada divergência que se tornou a conversa em torno do tema.
O OSR está morto: um corpo de remendos inconsistentes, alimentando a máquina de visibilidade e sedução do engenho moderno.
Ele anda, mas já não vive.
por Victor Troiani






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