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Ensaios Abissais: A fome do medo




Continuamos a seguir os rastros da impetuosa força criativa de Howard Phillips Lovecraft, tais quais pesquisadores, arqueólogos em busca de mundos perdidos nas elevações glaciais do polo antártico. Hoje ancoramos nossa embarcação em um dos pontos-chave para compreender a fome, a voracidade paradoxal com a qual atacamos seus escritos tenebrosos. Àqueles que não leram o primeiro ensaio da série, convido-os a fazê-lo depois deste, tendo em vista que a ordem de leitura não afetará a compreensão do todo.


O ensaio pode ser acessado na parte inicial das Páginas Secretas.


HPL, após sua morte, foi alçado a ícone da história de suspense terrível, colocado ao lado dos autores que admirava no hall dos que jamais serão esquecidos. Por que, apesar de terrível e repugnante, sua literatura nos faz grudar às páginas, como parasitas dos cósmicos dilemas?


O estudo, tendo como objetivo o lume da contemplação, só tem sua potência desbloqueada quando buscamos respostas em cantos diversos. Um acontecimento não se explica através de isolados recortes de jornal, fotos ou vídeos, não pode ser compreendido somente por suas origens e desencadeamentos históricos, nem mesmo se resolve ouvindo testemunhos e vasculhando memórias.


As ideias são essências eternas, e apesar de dividirmos com elas o Ser, não podemos apanhar todos os seus significados e efeitos, nem mesmo em um milhão de fabulosos éons.


A tarefa de apresentar minhas impressões e descobertas sobre Lovecraft amedronta e quase paralisa este autor, os dedos sobre as teclas tornam-se pesados e morosos ao mesmo tempo em que buscam se afastar da ferramenta com a qual redijo. Persisto, porém, por algum motivo intranscritível.


É feito o melindre que HPL nos provoca, vez atrás de outra, só para nos ver quebrá-lo, impossibilitados de ignorar suas próximas páginas, o seguinte encanto macabro. A arquitetura alegórica de seu mundo nos comunica este conflito Lovecraftiano, um embate que ocorre não apenas em seus contos, mas dentro de nosso espírito, enquanto leitores. Não surgiu com o autor, esse suspense trágico, psicológico e mítico, mas a forma como o conduz, sedutora e angustiante, o destaca na história da literatura.


Passando-se por realidade, os prédios, a natureza, personagens e fenômenos atmosféricos são descritos e adjetivados, todos tocados pela passagem de um tempo diferente do que conhecemos. Denegrido pela mancha do mito, o transcorrer do todo ritualiza uma comunhão com os acontecimentos que estão por vir.


Imagine sacerdotes e servos do obscuro, trajando mantos pesados, prosseguindo por um caminho, lentamente erguendo candelabros, irradiando lucidez pelas sendas, cada peça revelada apontando progressivamente para o desastre. A narrativa de HPL é um ritual profano e convidativo. Nos tornamos menos puros ao participar desta vacilante candeia, que quando finda, tem o poder de nos deixar sedentos ou estafados, marcados pelo desespero.


O autor é um sádico, nós somos masoquistas.


Através da mesma senda, trechos e motes ancorados na realidade comum, separados da supersticiosa névoa cósmica, nos permitem um ponto de comparação. É HPL, oscilando seu pêndulo de contraste, que teima pender para o pesadelo mas, vez ou outra, badala verossímil, nos aliviando da hipnose macabra, para permitir-nos perceber o quão longe estamos de casa.


Ademais, o mais louco e estranho dos mitos é meramente um amálgama de símbolos ou alegorias fundamentados na verdade.” - H. P. Lovecraft, A sombra de Innsmouth.


Em Lovecraft, o protagonista é avisado por interlocutores e por sua percepção por presença, de que gradualmente se aproxima de algo vil e incompreensível. Uma impressão, que sabemos, marcará não apenas sua curiosidade, mas mudará sua essência para todo o sempre. O autor não demora em nos desencorajar, advertir e mesmo relativizar a possibilidade de seu relato condizer com a verdade. Ainda assim, prossegue, conduzindo-nos por um inabalável crescendo, mostrando-nos o quanto somos capazes de ignorar nosso primal mecanismo, o medo, e o quanto é inútil tentar desviar-nos da auspiciosa trajetória, rumo ao abismo proibido.


O conteúdo verborrágico, que revisita impressões e acontecidos, que remarca motivações e ânsias, adjetivando cada vislumbre, cada fato e elucubração, em vão tenta nos deter, estamos decididos a despencar pela espiral da loucura, nos alimentamos de medo e insanidade, torcemos pelo desvelar.


Ambas estas forças, a acauteladora e a do ímpeto trágico, nos colocam em contato com algo adormecido, provocando pungentes emoções que se agitam e, antitéticas, convergem. São personagens da história protagonista e leitor, na mesma exata medida. Frágeis como uma pluma, e convidados a contemplar nosso destino, somos carregados por brisas e ventanias às quais nos prendemos, em voos vertiginosos em direção ao incerto. Conduzidos por Lovecraft, planamos sobre o oceano verde-escuro e, chamados por imagens obtusas, penetramos sua superfície opaca, mergulhando em um abismo e despertando com um grito enlouquecido.


Por Victor Troiani


Em cada ensaio apresento uma obra de um dos artistas que inspirou os trabalhos de Lovecraft. Desta vez ficamos com o imortal Edgar Allan Poe.


Sonho Contido em um Sonho


Aceita esse beijo na fronte!

E, ao deixar-te agora,

Este tanto permita que eu conte

Não erra, quem declara,

Que meus dias não passam de sonhos;

Se escapou-me a esperança

Numa noite, ou por um dia,

Em uma ou nenhuma visão,

É menos perdida, então?

Todo o visto ou percebido

É sonho contido em um sonho


Estou firme entre o rugido

Da tormentosa maré costeira

Carrego cerrados em punho

Grãos de dourada areia

Quão poucos! Entanto se esgueiram

Entre os dedos, rumo ao profundo

Eu choro, escorro meu pranto!

Deus, guardá-los não posso

Em uma firme garra, contê-los?

Oh Deus, ao menos um, salvá-lo

Das implacáveis ondas protegê-lo?

Todo o visto ou percebido

É só sonho contido em um sonho


A Dream Within a Dream


Take this kiss upon the brow!

And, in parting from you now,

Thus much let me avow —

You are not wrong, who deem

That my days have been a dream;

Yet if hope has flown away

In a night, or in a day,

In a vision, or in none,

Is it therefore the less gone?

All that we see or seem

Is but a dream within a dream.


I stand amid the roar

Of a surf-tormented shore,

And I hold within my hand

Grains of the golden sand —

How few! yet how they creep

Through my fingers to the deep,

While I weep — while I weep!

O God! Can I not grasp

Them with a tighter clasp?

O God! can I not save

One from the pitiless wave?

Is all that we see or seem

But a dream within a dream?


Edgar Allan Poe


Tradução por Victor Troiani


Inspirações:


H.P. Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura (1936)

Michel Houellebecq, H. P. Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida / Editora Nova Fronteira (2020)

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