top of page

Ensaios Abissais: um estudo sobre Lovecraft.

Atualizado: 20 de jan.




Introdução

Ensaios Abissais


Aqui inicio a série de ensaios explorando a obra e vida de H. P. Lovecraft. Convido-o a mergulhar nos oceanos profundos, onde descansam seres imperturbados por milênios, com suas peles escorregadias, cobertas por escamas horrendas e ornadas de cílios pegajosos.


Não se preocupe, entre os terrores abissais e a perdição cósmica, guiarei nossa jornada também por caminhos percorridos por outros autores e pesquisadores, viajantes que viram do que são feitos os pesadelos do magnífico autor e voltaram das profundezas das eras para elucidar tais mistérios. Vejamos então as peculiaridades e forças que alimentaram a ficção do escritor, natural da cidade de Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos.


As ideias por sob a arte

A essência do escritor


A genética dos terríveis mistérios apresentados por Howard Phillips Lovecraft é composta por diferentes manifestações da psique do autor. HPL era um homem que se comportava e pensava deslocado de seu tempo, tendo informado seu imaginário por dramáticas dificuldades existenciais, unidas às influências bíblicas, de autores clássicos, de textos científicos e diferentes correntes filosóficas. Nas palavras de Otto Maria Carpeaux, crítico literário:


Lovecraft [é] um espírito lúcido de convicções materialistas, estudioso crítico da “literatura do sobrenatural”, que inventou, como base das suas horripilantes histórias […] , uma extensa mitologia de aspecto pseudo-religioso


Pendia do mesmo galho, da árvore do mistério e suspense, de onde brotavam ou davam base nomes como Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce e mesmo Honoré de Balzac. Entre seus pares e correspondentes despontam Robert E. Howard, autor de Conan e Robert Bloch, escritor do livro Psycho, que inspiraria filme homônimo do cineasta do horror, Alfred Hitchcock.


Fora da literatura fantástica, HPL interessava-se por história, com curiosidade estudou as civilizações antigas, entre elas a grega, egípcia, judaica e cristã, além de variadas áreas do conhecimento científico e filosófico.


Mas não só do mundo se munia HPL, notoriamente o autor derivava suas horrendas concepções de sonhos e pesadelos que costumavam a afligi-lo. Ao imaginar o que seria se deitar no travesseiro onde Lovecraft teve seus delírios oníricos, Stephen King pontua:


Mais tarde naquela noite, na cama, minha mente se voltou para ela [a ideia] novamente, e, no escuro, o que parecera maravilhoso à luz da tarde tornou-se horrível. Era pensar nas histórias dele, entende – aquelas que tinham estado naquela cabeça estreita, horrores separados do travesseiro apenas pela mais fina camada de osso. As melhores delas, que Michel Houellebecq chama de “grandes textos” – são singularmente terríveis em toda a literatura americana e sobrevivem com todo o seu poder intacto. […] [Lovecraft] tinha aquela necessidade neurótica de simplesmente continuar perfurando a coluna da realidade. […] o tom estridente da compulsão de HPL era contrabalanceado por uma espécie de poesia pesada e uma variedade extraordinária de visão imaginativa. Seus gritos de horror são lúcidos.


Por fim, como terceira chave, depois de percorrer o didático e o onírico, e guardando a apresentação pessoal e sociológica para um próximo ensaio nesta série, destaco que na alma do materialista autor, no cerne de sua arte, banhando tanto em estilo quanto em lirismo, reside a poesia. HPL era poeta, antes mesmo de ser contista, e a capacidade idílica de suscitar paragens, criaturas e acontecimentos singulares, é a manifestação de sua poiesis.


Encerro este primeiro estágio, em que nos aprofundamos em HPL, com uma amostra de sua potência criadora, e do seu estilo, por vezes subestimado por autores e críticos. Logo depois, a título de curiosidade e para diversão pessoal, traduzo para o português o poema ao qual se atribui a inspiração para o célebre personagem de Lovecraft, Cthulhu.


Além disso, havia um elemento de beleza cósmica estranhamente tranquilizadora na paisagem hipnótica através da qual escalávamos e mergulhávamos fantasticamente. O tempo ali se perdia nos labirintos que deixávamos para trás, e à nossa volta se estendiam apenas ondas florescentes da beleza feérica e recapturada dos séculos perdidos – venerandos arvoredos, pastagens intactas bordejadas de alegres flores outonais, e vastos intervalos nas pequenas casas marrons de fazendas, aninhadas entre imensas árvores na base de precipícios verticais de urzes e relvas perfumadas. Até a luz do sol assumia um fascínio superior, como se uma atmosfera ou uma emanação especial cobrisse toda a região. Nunca tinha visto nada parecido, exceto nas visões mágicas que às vezes formam os cenários primitivos italianos. Sodoma e Leonardo conceberam essas paisagens, mas entrevistas apenas à distância, e através das abóbadas das arcadas renascentistas. Agora estávamos atravessando fisicamente aquele quadro, e eu parecia encontrar em sua necromancia algo que eu conhecia inata ou hereditariamente, algo que eu passara a vida procurando em vão.” - H. P. Lovecraft


O Kraken

Por sob as trovoadas na fundura mais sublime,

Abaixo, tão além no abismal marinho,

O antigo, resguardado e sem sonhos, jazindo

O Kraken adormecido: parcos feixes de luz reprime

Em seu flanco sombrio; para cima, brotantes

Esponjas milenares em altura e crescimento;

Inalcançáveis investem contra as luzes decadentes,

Das extravagantes cavernas de secreto encerramento

Inumeráveis e grotescos pólipos apendiculares

Prescrutam, gigantescos, imensidões esverdeadas

Ali deitou-se por eras, perene e inalterada

Cobrindo enormes vermes, sob o mar adormecido

E só quando a última chama, fulgir ardente o precipício

Enfim, e uma só vez, por homens e anjos será visto

Rugindo há de emergir e perecer na superfície.


The Kraken

Below the thunders of the upper deep,

Far, far beneath in the abysmal sea,

His ancient, dreamless, uninvaded sleep

The Kraken sleepeth: faintest sunlights flee

About his shadowy sides; above him swell

Huge sponges of millennial growth and height;

And far away into the sickly light,

From many a wondrous grot and secret cell

Unnumbered and enormous polypi

Winnow with giant arms the slumbering green.

There hath he lain for ages, and will lie

Battening upon huge sea worms in his sleep,

Until the latter fire shall heat the deep;

Then once by man and angels to be seen,

In roaring he shall rise and on the surface die.


Poema de Alfred Tennyson


Traduzido por Victor Troiani


Fontes:

Otto Maria Carpeaux, História da Literatura Ocidental / Editora Sétimo Selo (2021)

Michel Houellebecq, H. P. Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida / Editora Nova Fronteira (2020)

Northrop Frye, O Grande Código: A Bíblia e a Literatura / Editora Sétimo Selo (2021)

24 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page